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Preocupação com calote leva bancos a provisionar valor recorde de mais de R$ 500 bi; entenda

  • 27/03
  • Geral
  • Assessoria de imprensa

Trata-se do maior volume provisionado em relação à carteira de crédito em duas décadas; apesar do corte recente, juros ainda são considerados restritivos, impactando empresas e consumidores (Por Jenne Andrade) - foto reprodução - 

Resumo
Bancos no Brasil preveem perdas de até R$ 542 bilhões devido à inadimplência, segundo o Banco Central. A mudança na regra de provisões, Resolução CMN 4.966, exige que bancos provisionem antes da inadimplência, elevando as provisões em 20%. A Selic, agora em 14,25%, ainda é alta, impactando empresas e consumidores. Especialistas divergem sobre o futuro da inadimplência. Crises corporativas, como a da Americanas, também aumentam as provisões. O setor imobiliário e o agronegócio são fortemente afetados

Os bancos públicos e privados se preparam para perder até R$ 542 bilhões para a inadimplência até janeiro deste ano, de acordo com um levantamento produzido pelo Banco Central. Esse volume de recursos está registrado no balanço das instituições financeiras como “provisões para crédito” ou “provisão para devedores duvidosos” (PDD), termo usado para se referir a possíveis calotes em empréstimos concedidos a pessoas físicas e empresas.

Este é o maior valor nominal já separado pelos bancos para lidar com a inadimplência desde o início da série histórica, nos anos 80. Em termos porcentuais, o montante de provisão representa 7,6% de tudo que foi emprestado pelas instituições financeiras aos clientes - o maior nível em duas décadas.

Há alguns fatores técnicos que explicam esse cenário. O principal deles é a mudança na forma com que são calculados os recursos a serem provisionados para possíveis calotes, com a adoção de uma nova regra no final de 2024, chamada “Resolução CMN 4.966”.

De acordo com Pedro Ávila, analista da Varos Research, antes desta nova regra, os bancos classificavam os empréstimos por níveis de atraso e, a partir dessa classificação, estabeleciam um porcentual de provisão.

“Na resolução antiga, a inadimplência chegava antes da provisão. Essa dinâmica causava insegurança nos balanços”, afirma Ávila. Na CMN 4.966, as provisões precisam ser feitas antes de a inadimplência acontecer, com base em cálculos que levam em consideração características do devedor e as expectativas para a economia. Essa mudança na forma de calcular fez com que, somente entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, as provisões crescessem 20%.

“Além disso, a nova resolução classifica como operação de crédito algumas transações que anteriormente não eram classificadas como tal”, diz o especialista da Varos. Um exemplo, aponta Ávila, são os títulos atrelados a dívidas das empresas, conhecidos como debêntures. “Havia risco de crédito, mas os bancos não precisavam fazer provisões para isso antes da nova resolução.”

A partir das mudanças regulatórias, as provisões para inadimplência também passaram a refletir melhor a percepção das instituições financeiras sobre os rumos da economia. Em outras palavras, os bancos provisionam mais quando projetam que as pessoas e empresas terão mais dificuldades para pagar suas dívidas no futuro.

Uma parte dessa expectativa é sustentada pelo nível da taxa básica de juros Selic, o principal parâmetro para os juros praticados em operações de crédito no País. Na última quarta-feira, 18, o Comitê de Política Monetária (Copom) fez o primeiro corte na taxa em dois anos, de 0,25 ponto porcentual, para o patamar de 14,25% ao ano.

Os efeitos da diminuição da taxa não são sentidos instantaneamente e o nível de juro atual ainda é considerado “restritivo”. Ou seja, encarece as dívidas das empresas e os empréstimos concedidos a pessoas físicas. Antes do corte, a Selic estava em 15% ao ano, o maior patamar em duas décadas.

Além disso, incertezas no médio prazo têm dividido especialistas sobre as perspectivas para inadimplência.

“Apesar de o Banco Central ter reduzido a Selic, desde que começou a guerra no Irã os juros estimados para daqui a 12 meses estão quase em 14% ao ano”, aponta Alexandre Chaia, professor de finanças do Insper, que não vê indícios de melhora da inadimplência no curto prazo. “Temos um problema fiscal que precisará ser endereçado no ano que vem. O futuro governo terá de fazer escolhas e, provavelmente, cortar investimentos, diminuir recursos transferidos para famílias de baixa renda.”

Já Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV EAESP, é mais otimista. “Desde o final do ano passado, eu vejo bancos freando as concessões de crédito. Isso deve melhorar a qualidade das carteiras e a inadimplência pode começar a ceder”, afirma.

Alta da inadimplência virou até oportunidade de negócio
Entre as pessoas físicas, modalidades como crédito rotativo são apontadas como os principais focos de inadimplência em função dos juros mais altos. Segundo dados do BC, o rotativo do cartão cobra até 1222% de juros ao ano.

Em relação às pessoas jurídicas, a distribuição da inadimplência é menos óbvia. Sofre mais quem opera com um nível de endividamento mais alto, pois, com a elevação da Selic, as dívidas se tornam mais caras. Muitos empréstimos são atualizados com base no “CDI”, taxa atrelada à Selic.

Pequenas e médias empresas também apresentam, no geral, mais dificuldade em pagar as dívidas, por terem menor capacidade de negociação com os bancos.

Um exemplo de setor substancialmente impactado por fatores macroeconômicos, como juros e inflação, foi o agronegócio. Mudanças nos preços das commodities e a escalada da Selic formaram a tempestade perfeita para o segmento, que amarga recuperações judiciais recordes.

O Banco do Brasil, um dos principais fornecedores de crédito para o setor, precisou aumentar as provisões para inadimplência.

“O banco reforçou uma postura prudencial e adotou medidas concretas para mitigar a inadimplência e apoiar seus clientes. Por exemplo, atingimos a marca de R$ 35,5 bilhões em dívidas rurais renegociadas”, diz o BB. Para frente, a expectativa do banco é de um cenário com “gradual estabilização dos indicadores de inadimplência e do custo do crédito”.

O setor imobiliário também foi pressionado pela subida dos juros, grande responsável pelo fracasso de lançamentos imobiliários. Como o Estadão já mostrou anteriormente, construtoras ligadas à classe média já sentem no bolso os impactos desta situação.

A deterioração do mercado de imóveis criou, até mesmo, um novo nicho de negócio: o de empresas especializadas em lucrar com os problemas do setor imobiliário. A gestora Haltin Capital, por exemplo, nasceu no final de 2023 com a proposta de ser a primeira casa 100% especializada na compra de ativos imobiliários “estressados”, como obras paradas, lançamentos que não deram certo e operações de crédito inadimplidas.

“O custo de financiamento está muito alto por conta da taxa de juros. Isso significa que um consumidor que ganhava R$ 10 mil por mês conseguia comprar um apartamento de R$ 1 milhão há alguns anos. Hoje, com o mesmo dinheiro, consegue, talvez, comprar um de R$ 600 mil”, diz João Oliveira, sócio-fundador da Haltin.

Apesar das dificuldades do segmento, a Caixa Econômica, o principal banco para financiamento imobiliário, diz que a expectativa é de manutenção da inadimplência em “patamares controlados”.

“76,9% das operações (de crédito) concentram-se nas categorias C1 e C2, que correspondem a créditos com menor probabilidade de inadimplência e garantias de maior qualidade, como alienação fiduciária de imóveis e garantias reais”, afirma a Caixa.

Crises também inflaram provisões
Nos últimos anos, uma série de grandes empresas também tem contribuído para engordar as provisões para inadimplência dos bancos. Entretanto, os fatores macroeconômicos - como juros e inflação - ficam em segundo plano.

Flávio Conde, chefe de análises da Levante Ideias de Investimentos, aponta para uma sequência excepcional de crises que levaram ao aumento do provisionamento de recursos. A fraude bilionária descoberta na Americanas em 2023 é um dos eventos que levou bancos a reforçarem as provisões para calotes.

Ele também cita recuperações extrajudiciais recentes, como a da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar. “A alta da taxa de juros não conta mais da metade da história (da inadimplência entre pessoas jurídicas)”, afirma Conde. “Esses grupos não entraram em recuperação porque o juro subiu.” (Fonte: Estadão)

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