Na mesma manhã, a entidade esteve na mesa de negociação em São Paulo e reuniu, em Brasília, presidentes das AEAs e gestores da Caixa para discutir números, custos e alternativas para o plano. O desafio é buscar sustentabilidade sem tornar o Saúde Caixa inviável justamente para quem mais precisa dele. (Por Caetano)
A quarta-feira, 19 de agosto, colocou a FENACEF simultaneamente em dois espaços decisivos da discussão sobre o futuro do Saúde Caixa.
Em São Paulo, o presidente Valfrido Oliveira participou da sétima rodada de negociação específica com a Caixa. Havia expectativa de uma nova proposta depois da rejeição dos modelos apresentados anteriormente, mas o encontro terminou sem avanço sem a apresentação de nova proposta.
No mesmo horário, em Brasília, a diretora Vânia Lacerda e presidentes das AEAs, presencialmente e de forma virtual, participaram de uma reunião de três horas na sede da FENACEF com Salete Cavalcanti, Assessora Estratégica da Presidência da Caixa, Adriane Velloso, Diretora de Pessoas, Ana Cláudia Costa Sousa, Superintendente Nacional de Estratégia de Pessoas e Relacionamento com Empregados, Henrique José Santana, Gerente Nacional de Benefícios, e Rodrigo Santiago Pereira, Superintendente Nacional de Pagamentos e Benefícios.
De um lado, pressão para que a negociação avance. Do outro, diálogo direto com a Caixa sobre os números, os custos e os caminhos possíveis para o plano.

Para a FENACEF, há uma questão que precisa acompanhar toda essa discussão. O aposentado que hoje utiliza mais o Saúde Caixa não entrou no plano aos 60 ou 70 anos. Antes disso, foi o empregado jovem que contribuiu durante décadas, utilizou menos, constituiu família, ajudou a sustentar o sistema coletivo e agora chegou justamente à fase da vida em que mais precisa dessa proteção.
Em São Paulo, FENACEF cobra avanço e rejeita transferência da conta
Valfrido Oliveira foi a São Paulo com a expectativa de uma evolução concreta para o Saúde Caixa. Porém, diante da retirada do tema da pauta, o presidente da FENACEF demonstrou sua indignação com o fato.
“Tirar do debate o tema central das negociações é ato de desrespeito flagrante com trabalhadores, aposentados e pensionistas, sobretudo com nossos aposentados.”
A preocupação é consequência dos modelos discutidos nas rodadas anteriores. No primeiro, apresentado em 5 de agosto como “modelo atual reajustado”, a contribuição do titular passaria de 3,5% para 5,5% da remuneração-base. O dependente direto subiria de R$ 480 para R$ 870, o indireto para R$ 930 e os filhos de 24 a 27 anos, de R$ 800 para R$ 1.050. O limite de comprometimento da renda familiar passaria de 7% para 14%.
Em 14 de agosto, a Caixa apresentou outro desenho, com cobrança individual por faixa etária, piso de R$ 400 por grupo familiar, 13 contribuições anuais e limite de até 12% da remuneração-base do titular.
Os valores iam de R$ 358 para beneficiários de até 18 anos a R$ 2.148 por vida para quem tem 59 anos ou mais.
O que já foi rejeitado na mesa
É nesse ponto que a preocupação dos aposentados se torna ainda maior. Uma cobrança crescente conforme a idade desloca parte importante do ajuste para quem chegou à fase de maior utilização do plano.
A FENACEF reconhece que a sustentabilidade precisa ser discutida, mas sustenta que o problema não pode ser resolvido apenas aumentando a contribuição dos beneficiários. A participação da Caixa e a eficiência das despesas precisam suprir essa equação.
Em Brasília, números ampliam a discussão sobre a sustentabilidade do plano
A reunião na sede da FENACEF mostrou o outro lado da equação. A Caixa apresentou cinco fatores que considera determinantes para o crescimento das despesas: maior utilização, novas tecnologias, medicamentos de alto custo, custos hospitalares crescentes e judicialização.
Segundo as telas apresentadas, o custo da saúde suplementar cresceu, entre 2006 e 2024, em média de 2,5 a três vezes o IPCA. Outro gráfico mostrou o chamado déficit operacional acumulado, que passa de R$ 61 milhões em 2016 para R$ 974 milhões em 2025.
A dimensão do plano também apareceu nos dados. Em um único dia, o Saúde Caixa registra aproximadamente 32 mil exames, 3,7 mil consultas, 880 atendimentos em pronto-socorro, 349 atendimentos de telemedicina, 265 internações e cinco partos. A despesa assistencial diária apresentada foi de cerca de R$ 12 milhões.
A Caixa mostrou ainda que o plano possui 126,9 mil titulares, dos quais 72% são empregados ativos e 28% aposentados e pensionistas.
Outro número que ganhou espaço no debate foi o das isenções de mensalidade. De acordo com a apresentação, são 87.902 vidas com algum nível de isenção, sendo 34.130 com isenção integral e 53.772 com isenção parcial.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Mas, para os presidentes das AEAs, eles também reforçam a necessidade de olhar para as despesas e para a gestão.
Nesse ponto, Vânia Lacerda foi direta.
“A gestão do plano está sob comando da Caixa e os empregados e aposentados não têm nenhuma interferência nisso. Se medidas de eficiência são necessárias, elas precisam ser efetivamente implantadas, antes de cogitar qualquer aumento de mensalidades. Não é cabível que a Caixa administre o plano e jogue o custo da ineficiência para empregados e aposentados pagarem”.
Ela defendeu mais controle sobre preços hospitalares, procedimentos e cobranças, além de maior transparência para que o próprio beneficiário saiba o que foi registrado em seu nome e quanto custou ao plano.
Ao mesmo tempo, alertou que o esforço precisa ser compartilhado. “Se a gente quiser manter o nosso plano sustentável, não dá para olhar só para um lado dessa equação.”
Esse ponto encontrou convergência com os próprios gestores da Caixa. Adriane Velloso reconheceu que sucessivos reajustes não resolvem o problema estrutural. “Só aumentar não é o que vai ajudar o plano.”
Salete Cavalcanti também defendeu uma solução de longo prazo, combinando contribuição dos beneficiários, participação da Caixa e aumento efetivo da eficiência. “Não queremos um voo de galinha.”
A assessora apontou ainda limitações na atual estrutura de gestão do Saúde Caixa e afirmou que qualquer discussão sobre um novo modelo precisa contar com a representação dos aposentados. “A FENACEF tem que participar ativamente disso.”
Saúde Caixa em números

O aposentado precisa estar no centro da solução
Por trás de tantas tabelas há uma questão simples. A carteira envelheceu e pessoas mais velhas naturalmente utilizam mais serviços de saúde. Mas envelhecer não pode transformar o beneficiário em problema, pois o aposentado de hoje foi o empregado de ontem. Contribuiu quando era jovem, muitas vezes utilizou pouco o plano, ajudou a financiar outras gerações e permaneceu no sistema durante toda a vida profissional.
Ana Cláudia Costa Sousa resumiu essa lógica durante o encontro. “Nós somos ativos e vamos ser aposentados.”
É justamente esse ciclo que dá sentido ao pacto intergeracional.
A reunião de Brasília mostrou que o Saúde Caixa enfrenta problemas reais de custo, gestão e eficiência. A mesa de São Paulo mostrou que ainda falta transformar os estudos em uma proposta capaz de preservar o plano sem tornar sua permanência inviável para quem mais precisa dele.
Para a FENACEF, essa discussão também precisa enfrentar de forma objetiva a participação da Caixa no custeio. Com as despesas médicas e hospitalares crescendo acima da inflação, não interessa aos aposentados apenas discutir como o déficit será dividido entre titulares, dependentes ou faixas etárias. A entidade defende que a Caixa amplie sua contribuição e volte a responder efetivamente por 70% dos custos do Saúde Caixa. Sem uma participação maior da patrocinadora, o debate corre o risco de se limitar à distribuição de uma conta cada vez maior entre os próprios beneficiários. (Fonte: Fenacef)